O BRASIL E A ALCA
(*) Valter Pereira Appas

Especula-se muito sobre se devemos ou não aderir a ALCA. Os que são favoráveis argumentam que a não adesão significaria um isolamento desastroso para o Brasil, os que são contra, afirmam que seria a pena de morte para vários setores industriais diante da invasão de produtos americanos. Porém a questão é outra. O cerne da ALCA não é o comércio, mas a legislação de investimentos e de propriedade. Exatamente como o NAFTA, que em princípio deixou os mexicanos eufóricos, mas agora com os americanos se apropriando legalmente de várias extensões de terra e o setor de serviços
sucumbindo ao poder dos grandes players americanos, fez o México despertar para a cruel realidade: desemprego e dependência econômica.

Obviamente não podemos tomar a atitude pueril de nem querer discutir o assunto, porém, existem fatos óbvios e contundentes que não são pautados ou sequer citados nas discussões preliminares. Um exemplo disso é o caso do aço, a nossa indústria siderúrgica é mais moderna e mais competitiva que a industria americana. No caso de nossa adesão a ALCA, os americanos eliminariam suas barreiras tarifárias e o nosso aço entraria alegremente em seu mercado, desbancando o produto americano. Certo ? Errado. Estrategicamente os E.U.A. nunca poderão prescindir de sua produção interna, já que o aço é um componente vital da indústria bélica e, deixando seu parque siderúrgico ruir em virtude de importações livres, sua segurança ficaria seriamente comprometida. Portanto nessa área não podemos nutrir esperanças.

No setor agrícola, todos sabemos que a agricultura americana é altamente subsidiada. Da soja ao suco de laranja produzido na Flórida, os subsídios e proteções tarifárias são escandalosos. Nesse setor nossas chances de um acordo justo também são mínimas. O agricultor americano tem um lobby fortíssimo em Washington e nenhum político ousaria enfrenta-los sem correr o risco de ser inviabilizado eleitoralmente. O fator geopolítico da segurança alimentar interna, seria outro obstáculo para a livre entrada de nossos produtos agrícolas no mercado dos Estados Unidos.

No setor de serviços, o nível de competitividade das empresas americanas detonaria a estrutura das empresas brasileiras, alijando-as literalmente do nosso próprio mercado, exatamente como está acontecendo com as empresas mexicanas.

Concluindo; pelo porte do nosso mercado e pelo potencial que ele representa, o melhor para nós será a formalização de acordos bilaterais de comércio com o máximo de países possíveis e tentar compor da melhor forma uma relação de cooperação e de intercâmbio com os E.U.A . Somos o único país das Américas com cacife suficiente para adotarmos um plano B em alternativa à ALCA, usar de maneira hábil este trunfo determinará o papel que exerceremos no mundo nos próximos anos, se de líderes ou subservientes.

* Este artigo foi publicado originalmente no relatório quinzenal do Observador Macro Econômico, em 05 de fevereiro de 2003, dez meses antes da reunião de Miami onde Brasil e Estados Unidos coordenaram a implantação da ALCA Light.

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